entreVISTA do Artista – Jim Duran

Seguindo com nossos bate-papos, hoje é dia de trazer Jim Duran e suas reflexões a cerca desse mundo de cabeça para baixo. Esta é a terceira entrevista de uma série de conversas com diferentes personalidades do mundo das artes. O projeto “entreVISTA do Artista” é uma iniciativa de trazer à tona as impressões e reflexões de diversos artistas sobre esse nosso momento atual, onde a Pandemia Mundial de COVID-19 sacode o planeta, as relações sociais, políticas e econômicas, além de transformar o modo como vivemos e nos relacionamos. Eles são escritores, artistas plásticos, editores, quadrinistas e ilustradores, todos com variados e interessantes pontos de vista sobre tudo o que está acontecendo no momento.

Jim VISTO por Jim...

Jim Duran é escritor, ator, diretor de teatro e podcaster sem paciência. Começou a publicar em 1992 e desde lá já passou pela imprensa escrita e televisiva. Já participou de audiovisual, foi premiado pelo Mapa Cultural Paulista, já foi youtuber literário. Gosta de caminhar fumando cachimbo, é mais calado do que esperam, gosta de uma boa conversa, gosta da troca criativa. Já participou do movimento de poetas livres nas praças de Cuiabá/MT. Foi um dos editores da revista digital “beatbrasilis” e vive ensaiando o retorno do projeto. Atualmente se dedica ao podcast “Boilermaker” em que fala de cultura e comportamento sem papas na língua e com seu jeito característico com pitada de bom humor e uma leve acidez. Gosta de ler, de escrever e de tomar café. Ultimamente tem se dedicado ao exercício da marcenaria amadora (já aprendeu a bater pregos) e de tirar fotos do gato Gaivota.

Para começar nosso bate papo, conte-nos um pouco do seu processo de criação. De onde vêm suas ideias e inspirações? Você cultiva hábitos para se manter criativo?

Gosto muito de conversar, de ouvir histórias das pessoas, de ouvir seus relatos. Em geral tiro de algum momento dessas conversas algo que me desperta. É um clique na cabeça que me persegue até começar a escrever, rascunhar, algo nesse sentido. Muitas vezes, na maioria, acaba não dando em um produto final, fica somente como exercício de escrita. Procuro observar também, estar atento ao mundo com um olhar diferente do cotidiano. Ouço música enquanto fumo meu cachimbo, fico mergulhado em possibilidades até que surja um caminho. Até lá é uma busca por algo que não sei o que é.

Muitos são os mestres que nos inspiram durante nossa trajetória em diversas fases da vida. Quem são seus mestres ou artistas preferidos atualmente? Além dos atuais, quais artistas e/ou escritores estão sempre presentes quando você se coloca a pensar sobre um novo projeto?

Listo os que sempre me fizeram companhia, que estão na minha estante ou espalhados pela casa, pelo quarto: Conan Doyle, Kerouac, Bukowski, Guimarães Rosa, Vinícius de Moraes, Paulo Leminski, Ana Cristina César, Hilda Hilst, Hemingway, Anais Nin, Aleilton Fonseca, João Nicodemos Araújo, Allen Ginsberg, Rubem Fonseca, João Ubaldo Ribeiro, Caio Fernando Abreu, Neimar de Barros, John Steinbeck.

Imagem de ThuyHaBich por Pixabay

Como você tem visto esse momento de privação física e isolamento social? De que maneira você está interagindo com essa nova realidade que se apresenta sem nos pedir licença?

Por mais que não pareça sou bem recluso normalmente, gosto de ficar em casa, de ouvir música, ler, ver vídeos idiotas no youtube. Gosto de ficar fumando cachimbo, trocando ideia sobre mistura de tabacos e tentando as minhas também. Mas a obrigatoriedade de ter de ficar em casa me é maléfica. Sempre gostei de fazer caminhadas pela cidade, simplesmente andar e ver lugares, sempre gostei de caminhar pela madrugada adentro, sem ter que ficar parando para conversar com alguém. Não suporto mais ter que ficar em casa, caminhar com máscara é horrível. Me sinto preso e isso é um saco. Acho que, quem sofre mais é a Isis, que acaba lidando com o silêncio e manias.

Artista em gabinete é leão na jaula, não pode”

De que formas essa nova realidade compulsória reflete-se no seu trabalho, em sua arte?

Reflete numa certa amargura e depressão no que venho escrevendo. Não tenho gostado muito do que tem saído, vai mais para as páginas do diário do que para os amigos com quem divido ou os canais que normalmente fluiria essa produção. Lido com a depressão cotidianamente já há um tempo, então sinto como se tivesse uma lupa em cada segundo do meu dia. Remédios, ansiedade, algumas crises, caminhadas pelo quintal e tentativa de leitura ou concentração, tem sido assim meus dias.

Atualmente no Brasil existe um forte movimento obscurantista derivado do recente tsunami de Fake News que assolou (e ainda assola) o país desde as últimas eleições presidenciais. Em sua opinião, quais são os riscos reais que a arte e a cultura estão correndo? O que é só cortina de fumaça e com o que devemos nos preocupar?

Em momentos semelhantes ao que vivemos atualmente a arte tem sido sempre uma trincheira de combate ao status quo absurdo. Tentam nos calar de muitas formas, algumas bem sutis e outras como uma onda violentíssima. Criar, manter sua posição como membro ativo da comunidade, é importantíssimo. Não dá pra fingir simpatia pelos os que apoiam a situação. Mesmo dentro dos gabinetes dos setores culturais estamos sofrendo ataques e cerceamento, tentam usar o sistema para nos diminuir e nos enfraquecer. Mas artista não pode ser parte do sistema, tem que ser marginal, tem que estar à margem do que acontece e da forma que acontece, só não pode ficar calado, amedrontado e, muito menos, conivente. Artista em gabinete é leão na jaula, não pode.

“Só os mortos não se posicionam, então qualquer atividade artística é política, mesmo que não seja partidária”

Nosso país vive uma realidade polarizada, onde os debates não são muito claros e são carregados de passionalidade ideológica irracional e muitas vezes sem profundidade. Recentemente o filósofo brasileiro Vladimir Safatle afirmou que “na política não existe gramática comum”. O escritor Julián Fuks, vencedor de vários prêmios literários importantes, entre eles, o Jabuti, defende que a literatura contemporânea deve ser engajada, sem ser panfletária. Partindo dessa aparente sinuca de bico, você acha que ainda existe espaço para uma arte/literatura não engajada politicamente? Qual sua opinião sobre o posicionamento político do artista em sua própria arte? E como isso é possível, visto que aparentemente ninguém escuta ninguém?

As pessoas não compreendem que tudo é política, viver é um ato político. Confundem política com partidarismo, mas somos agentes políticos por natureza. A arte pode não ter um surgimento político, o que é um contrassenso, pois ela marca um posicionamento de seu criador, mas posteriormente temos que lidar com a leitura que será feita desse fazer artístico. Nunca houve espaço para uma atividade artística calada e conformada, sempre rompemos barreiras, sempre damos um passo adiante, sempre vamos além do que a “polícia do pensamento” pensa permitir. Somos aqueles que escrevem os diários em canto, longe da transmissão do Grande Irmão. Só os mortos não se posicionam, então qualquer atividade artística é política, mesmo que não seja partidária. Ficar calado é uma atitude política, já.
As pessoas adoram o gritar, não gostam do debate porque seria preciso ouvir a outra parte, seria necessário comprovar seu ponto de vista, a validade de seu discurso. Esses imbecis que defendem esse atual governo no berro só sabem balir, não conseguem pensar nas asneiras que propagam, estão entalados com a alfafa do partidarismo extremo. Não há espaço para mais nada que não seja ódio e covardia, deturpação das coisas. Liberdade de expressão não é ofensa e mentira. Fazem o que fazem mas não possuem a força de caráter de assumir o resultado. É sempre um eterno empurrar a culpa para o outro. Xingar, ofender, mentir, enganar é muito fácil. Mas a realidade é que não aguentarão esse momento quando esse governo passar, porque irá passar, daí se mostrarão ainda mais covardes e imbecis do que são, negarão ter feito parte dessa massa idiota e cretina.

Você acha que nós humanos estaremos melhor depois da pandemia? Seremos mais solidários? Ou continuaremos da mesma forma, fazendo o mesmo que fazíamos antes do Corona vírus? Que lições devemos tirar de tudo isso?

Creio que mudaremos muito pouco, há uma grande parcela que não entendem a seriedade do momento em que vivemos. Para eles tudo é intriga da oposição. Se aprendêssemos algo com os sinais que o planeta nos dá, os oceanos estariam limpos há mais tempo. A qualidade do ar em alguns lugares teve uma melhora significativa com poucas semanas de mudança de hábitos, os canais de Veneza estão cristalinos, algumas praias também… mas o ritmo voltará acelerado e isso trará os velhos e cômodos hábitos de volta.

Imagem de StockSnap por Pixabay

Em recente entrevista a um jornal de grande circulação no país, o professor Leandro Karnal afirmou que “classes média e alta enfrentam tédio, classes baixas enfrentam fome”. O que você pensa desse cenário de obrigação de ficar em casa?

Só o cidadão classe A está em quarentena, mas a funcionária dele está indo limpar a casa, fazer as refeições, olhar as crianças. Nos primeiros dias da quarentena, teve o caso de uma senhora que tinha voltado da Europa e não quis dispensar a funcionária para que mantivesse as mordomias. A funcionária foi contaminada com o vírus e veio a óbito. A classe trabalhadora continua a encher o metrô e os ônibus porque não podem ficar em casa, perderão os empregos, perderão o pouco que tem. O Vírus mostra um fato cruel de nossa sociedade, a vida continua valendo pouco.

“O Vírus mostra um fato cruel de nossa sociedade, a vida continua valendo pouco”

O poeta Ferreira Gullar uma vez disse que “a arte existe porque a vida não basta”. Como você avalia essa afirmação diante de nossa realidade atual, onde assistimos uma marcha que tenta sistematicamente sufocar a cultura no Brasil? Na sua opinião, quais os desafios que a arte e a cultura enfrentarão no mundo pós pandemia?

A cultura nacional corre risco enquanto esse senhor e seus comparsas ainda estiverem livres. Nos cabe lutar de todas as formas e em todas as frentes, nos reinventaremos, não cairemos facilmente. A vida, sem arte, é impraticável. Esse momento de isolamento em que estamos é prova cabal de nossa importância. Mesmo nas cocheiras em que habitam os bolsonaristas, há aquela musiquinha tocando, há aquele filme sendo assistido, há um livro usado para calçar uma porta ou ser arremessado em alguém. O fazer artístico é sinuoso e caminha por cantos que mais nenhuma atividade vai. Não adianta nem tentar, podemos não ter mais o humor e a veia ferrenha de um Henfil, de um Millôr, de um Antônio Maria, de um Barão de Itararé. Mas o brasileiro arranjará um jeito de dar aquela cutucada. Eles que se aguentem com o que virá, pois iremos para cima com carga total. Mas o Brasil é um país imenso de campos e não faltará grama para que eles matem a fome.

Para terminar… Você está trabalhando em algum projeto novo? Se sim, conte-nos um pouco sobre o que podemos esperar.

Quando a depressão permite, sinto um pouco mais de vontade de dar prosseguimento a algumas coisas que estão em suspenso. Ando gravando primeiros capítulos de livros que gosto, pensando em gravar um conto do Aleilton Fonseca, tudo para o meu podcast “Boilermaker”. Ando com meus poeminhas saindo de vez em quando, papel e caneta sempre por perto, a gente nunca sabe. Tem também uma adaptação para teatro de um conto do Gabriel Garcia Marques que comecei quando estava envolvido mais com teatro, então é um projeto antigo que ainda me dá vontade de terminar. Penso em enviar para alguns amigos depois, ver o que acham, quem sabe rola uma montagem. Mas o que tem me mantido ativo mesmo é a luta contra a depressão, contra a ansiedade e a necessidade dos remédios que não gosto de tomar, mas sem eles fico insuportável, muito chato. Quem sabe esse ano eu termino alguma coisa, senão fica pra 21… ou não. Só sei que continuarei a caminhar e produzir, um fornilho cheio e café… ainda vivo.

Onde você encontra o Jim:

Blog https://jimduran.wordpress.com

Podcast: http://oboilermaker.blogspot.com

Um comentário sobre “entreVISTA do Artista – Jim Duran

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.